Interferências 2012

INTERFERÊNCIAS – MOSTRA PÚBLICA DE ARTE é uma intromissão no quotidiano da população dos grandes centros urbanos e procura levar ao grande público arte contemporânea através da apropriação de espaços públicos / “não-lugares” e meios associados à comunicação de massas.
Os seus eventos assumem, por isso, um carácter generalista, gratuito e massivo por intermédio de manifestações de carácter cultural emanadas pelos mais  diversos objectos artísticos adaptados para fins artísticos e profusamente disseminados por inusitados locais públicos.

Como alternativa a estes locais, a programação oferecida pelo INTERFERÊNCIAS desdobra-se noutros espaços físicos mais convencionais (galerísticos e afins) por forma a garantir que o público interessado possa ter a oportunidade de fruir as diversas exposições, mostras e actividades na sua globalidade em condições normais de recepção. Serão estes também os espaços onde decorreram as diversas inaugurações.

Para além da edição na zona da Grande Lisboa entre Janeiro e Abril de 2012, a iniciativa prolonga-se em 4 cidades portuguesas (Faro, Évora, Coimbra e Vila do Conde) e em Madrid no decorrer do próximo ano.

RASGOS [para lá da divisão]

António Couceiro Leal // João Pedro Leonardo // Luís Alegre // Pedro Vaz
Rui Toscano // Rui Valério // Sarah Jane Gorlitz (Canadá) // Wojciech Olejnik (Polónia)

 

“Aqui neste quarto, de onde quer que me posicione, apenas vejo três paredes. Sou totalmente livre”, explica o proprietário da ruína. “Posso mudar de posição, sentar-me, deitar-me – ir para ali, ou acolá – mas do meu ponto de vista nunca vejo a quarta parede. Atrás de mim tenho sempre um espaço infinito, e diante de mim gosto de colocar a vista do mar” (…)
De facto, para onde quer que olhe apenas vê três paredes! A quarta, a que está imediatamente atrás de si, é sempre um espaço aberto, sem fim.

in A meditação do cadáver – pré-publicação Miguel Gullander

Apesar de um muro ou uma parede se afirmar sempre como uma divisão, subjaz-lhe este aspecto dual: o ser desde barreira a acesso e tanto limite assim como igualmente suporte. Para além disto, detêm, ainda, a ambígua condição de terem duas faces, a interior e a exterior. E não se esgota por aqui.

A parede, entenda-se, no sentido de muro, segmentos de recta dispostos semicasualmente por algumas esquinas em ângulos perpendiculares, e muro como parede mais ou menos alta e geralmente espessa cercando uma área por si mesmo determinada que proporciona abrigo e/ou divisão na relação com o que lhe é exterior: um escudo, armadura, tudo extra, e mesmo uma terceira pele (para além do vestuário).
E sendo ambos, como objecto, quase quase a mesma coisa – distinguindo-se quase arbitrariamente pela sua disposição e localização -, encontro-a furtiva e esguia, a fronteira onde decidir quando uma parede deixa de ser muro ou quando se tornam vice-versas. Será o telhado que faz a parede? É o dar a face para um exterior que faz o muro? É que, ainda um outro aspecto ambíguo nas paredes e dos muros, o lado de dentro e o de fora dependem sempre do espaço onde, por ora, nos encontramos. E, deste modo, posso supor que as paredes que presentemente me rodeiam envolvem, na prática, todo este nosso planeta.
Em suma, e como barreira, a parede – o muro – delimita espaços e condiciona o movimento, mas como suporte pode oferecer portas e janelas, rasgos. E um acesso, que, se bem que nem sempre físico, é pelo menos e certamente visual.

Detentor de tão úteis características, assim foi sendo utilizado desde a antiguidade para defender e proteger povoados e posteriormente cidades… Em suma, regendo sempre a propriedade. É pois com naturalidade que, hoje, nos centros urbanos, mantenha a função de separar um espaço do outro, estabelecendo limites e demarcando territórios, invariavelmente a fronteira entre o espaço público e o privado e constituindo-se como vedação à circulação no espaço para além de delimitar o olhar.
Todas estas barreiras e condicionantes à circulação resultam em que nas cidades se caminhe invariável e parodoxalmente extramuros, sim, mas entre os mesmos. Sendo que o caudal de circulação de pessoas em trânsito no espaço urbano se queda restrito e afunilado a eixos de circulação mais ou menos preferenciais. Eixos murados, que adquirem, deste modo, um valor acrescentado, uma vez que se tornam painéis de suporte para os mais diversos tipos de ocupação, tais como a publicidade e toda uma paleta das mais diversas manifestações até mesmo para intervenções de cariz decididamente artístico.
Esse tipo de ocupações acaba por transformar, pois, a parede num espaço privilegiado para a permuta simbólica no tecido urbano. E é nesta perspectiva da parede como suporte para a mediação simbólica que surge RASGOS [para lá da divisão]: parede que sirva de  suporte ao objecto artístico apresenta-nos um rasgo tanto metafórico como literal, e o acesso a um espaço que se encontra bem para lá da divisão a que se está confinado. Uma paisagem sempre hipotética, mas sempre uma partilha e um motivo para abrandar o passo e talvez mesmo chegar a parar, um pouco. Num minuto.

Os trabalhos apresentam-nos, como paisagem enquadrada, o que poderá ser/estar para lá da barreira imposta. Nove artistas (uma dupla) apresentam, no subsolo de Lisboa, um ecléctico conjunto de cerca de três dezenas de trabalhos que mostram a heterogeneidade do que bem poderia estar, para lá da divisão.
Comissariado de André Gonzaga.

Interferências no Vídeo

VÍDEO – Sessões móveis e contínuas de screening no átrio da estação do Metropolitano Baixa-Chiado PT Bluestation e intromissão no regular canal informativo da PT Bluestation.

ARTISTAS PARTICIPANTES: António Couceiro Leal // João Pedro Leonardo // Luís Alegre // Pedro Vaz // Rui Toscano // Rui Valério // Sarah Jane Gorlitz (Canadá) // Wojciech Olejnik (Polónia). Comissariado de André Gonzaga.

 

“Aqui neste quarto, de onde quer que me posicione, apenas vejo três paredes. Sou totalmente livre”, explica o proprietário da ruína. “Posso mudar de posição, sentar-me, deitar-me – ir para ali, ou acolá – mas do meu ponto de vista nunca vejo a quarta parede. Atrás de mim tenho sempre um espaço infinito, e diante de mim gosto de colocar a vista do mar” (…)
De facto, para onde quer que olhe apenas vê três paredes! A quarta, a que está imediatamente atrás de si, é sempre um espaço aberto, sem fim.

in A meditação do cadáver – pré-publicação Miguel Gullander

Da nota de intenções do INTERFERÊNCIAS destaca-se o uso para espaços expositivos de meios comummente associados à divulgação, ao marketing e à publicidade. No caso específico da vídeo arte, condições destas tendem a inspirar reminiscências de guerrilha TV, numa certa nostalgia subversiva. As condições, porém, são as mesmas do ano transacto – i.e. draconianas -, e a exibição dos conteúdos programados na grelha regular da mopTV (circuito de televisão interno da rede do Metropolitano de Lisboa) estará em igualdade de circunstâncias com os spots publicitários: 60 segundos de exibição para cada objecto artístico intercalado por blocos de 10 minutos de programação regular.
Outro aspecto a considerar é que as condições de reprodução técnica não são as mesmas em todos os cais de embarque. Deve-se mesmo considerar que as condições de visionamento assim como também as condições áudio são absolutamente aleatórias e incontroláveis. De modo a contornar estes condicionalismos, INTERFERÊNCIAS contempla também, na programação de vídeo, um espaço alternativo para screening de todos os trabalhos em condições controladas.
Mas o tempo, portanto, persiste como fiel de balança no fio condutor que governa a selecção de trabalhos. Isto para além do já obviamente acima enunciado: Os trabalhos apresentam-nos, como paisagem enquadrada, o que poderá ser/estar para lá da barreira imposta. Nove artistas (uma dupla) apresentam, no subsolo de Lisboa, um ecléctico conjunto de cerca de três dezenas de trabalhos que mostram a heterogeneidade do que bem poderia estar, para lá da divisão.

POLÍPTICO: Evocação Fotográfica dos Painéis de São Vicente de Fora

O BES Arte & Finança inaugura dia 26 de Janeiro, quinta-feira, às 19h, a exposição Políptico, uma reinterpretação em versão fotográfica dos Painéis de São Vicente de Fora e reportados à sociedade portuguesa actual. Comissariada por Nuno Aníbal Figueiredo e D. André de Quiroga, esta mostra conta com o apoio da galeria Juana de Aizpuru e com o Alto Patrocínio da Assembleia da República.

Composta por trabalhos de José Luís Neto, José Maçãs de Carvalho, Pedro Cabral Santo, Carmela García, Cristina Lucas e Pierre Gonnord, a reinterpretação fotográfica incide em algumas das ideias que a História teceu sobre os Painéis de São Vicente de Fora, uma das maiores obras-primas da pintura portuguesa do século XV.

Estão presentes questões como o problema da autoria individual ou colectiva da obra; da sua unidade ou não enquanto políptico; da constatação de uma exuberante presença de elementos simbólicos ou de se tratar de uma mera “charada” visual; da dicotomia associada à figura central enquanto sacra, o Santo Padroeiro de Lisboa, ou laica como a representação da Nação; ou por fim, o desafio da identificação dos representados à época, desde os mais altos dignitários da nação até às classes mais humildes.

O conjunto de trabalhos da exposição Políptico tem igualmente o propósito de retractar a actual sociedade portuguesa, conservando a ambiguidade das premissas da pintura evocada.

Daí que se privilegie o carácter simultaneamente singular e colectivo da autoria dos vários trabalhos apresentados nesta exposição; a individualidade de cada retrato e a sua forçada aspiração a uma unidade de conjunto; a natural profusão de referências simbólicas em cada peça e o seu consequente enigmatismo; o assumir de uma obra-pastiche ou das múltiplas e legítimas reinterpretações possíveis de uma obra.

A exposição Políptico é gratuita e integra o cartaz cultural do BES Arte & Finança com a sinalética do * (asterisco), que se traduz na presença de algumas obras externas ao espólio do BES.

Cristina Lucas

Montañas, de Cristina Lucas, coloca em fundo as matérias primas de que Portugal é reconhecidamente extractor e produtor. Lugar associado à contemplação e reflexão, a montanha surge aqui ficcionada enquanto paisagem transformada pelo Homem como alegoria do tecido económico e social do país.

Cristina Lucas nasceu em Jaén, Espanha, em 1973. Vive em Madrid, onde se licenciou em Belas Artes, pela Universidad Complutense, em 1998. Principais exposições: Anos-luz, Museo Amparo Puebla, México (2011); Anos-luz Museo Carrillo Gil, México; Letargia revolucionária, Sala Santa Lucia, Sevilha (2010); Cristina Lucas – Talk, Stedelijk Museum Schiedam, Países Baixos; Cristina Lucas – Cain y las hijas de Eva, Galeria Juana de Aizpuru, Madrid; Eurasia. Geographic cross-overs in art, Museo d’Arte Moderna e Contemporanea di Trento e Rovereto – MART, Itália; The Furios Gaze, Centro Cultural Montehermoso, Vitoria-Gasteiz, Espanha (2008); 10th Istanbul Biennial (2007); Cristina Lucas, Fundación Ars Teor Etica, San José, Costa Rica (2004).

Pierre Gonnord

 

Tal como a obra invocada, o conjunto de fotografias patente em Lusitania Suite, de Pierre Gonnord, é uma espantosa galeria de retratos. A sua abordagem do indivíduo, à margem de qualquer estratificação social, inclassificável e atemporal em si mesmo, liga-se intimamente à herança deixada pelo Renascimento Humanista.

Pierre Gonnord nasceu em 1963 em Cholet, França. Desde 1988 que vive e trabalha em Madrid. Premiada com o Photography Award L’Oreal, Madrid (2003), Purificación García ou o Prémio Circulo de Bellas Artes, Madrid (2004), a sua obra está representada em colecções e museus espalhados por todo o mundo: Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía, Madrid, Museo de Arte Contemporáneo de Castilla y León – MUSAC, León, Espanha, Maison Européenne de la Photographie, Paris, Centre National des Arts Plastiques – CNAP, Paris, Museu de Arte Contemporânea, Chicago, Smithsonian Institute, Washington, Fundación Telefónica, Madrid, Colecção Banco Espírito Santo, Lisboa, entre muitos outros. Já teve inúmeras exposições individuais em Madrid, Sevilha, Lisboa, Paris, Barcelona, bem como exposições colectivas em Espanha, Suíça, Itália, França e EUA, entre outros países.

José Maçãs de Carvalho

Obra reveladora do artifício de um retrato colectivo nacional, antes ou agora, fazendo corresponder cada nome próprio a um nome não admitido, Sem Nome, de José Maçãs de Carvalho, une a ideia de identidade à de um registo nacional impossível.

José Maçãs de Carvalho (Anadia, 1960) é um artista formado em Línguas e Literaturas Modernas pela Universidade de Coimbra e possui uma Pós-Graduação em Gestão de Artes, no Instituto de Estudos Europeus de Macau (1998). Presença regular em várias edições dos Encontros de Fotografia de Coimbra, foi ainda, enquanto fotógrafo, nomeado para o prémio BES Photo 2005 (exposição patente em 2006 no Centro Cultural de Belém, Lisboa) e para a long list do prémio de fotografia Pictet Prix 2008 (Suiça). Destaque para a sua presença consecutiva nos Rencontres Internationales Paris/Berlin 2006 e 2007, Catodica: International Videoart Review, Trieste Film Festival, Itália, PHoto España, assim como para as exposições individuais Video Killed the Painting Stars (Solar – Galeria de Arte Cinemática, Vila do Conde, e Plataforma Revólver, Lisboa), em 2007, e Arquivo #0 (CAV, Coimbra), em 2011.

José Luís Neto

Inutilizado? apropria-se de uma imagem técnica de um pormenor dos Painéis, em negativo de vidro. O trabalho de José Luís Neto evidencia a erosão decorrente da passagem do tempo na matéria fotográfica. Do que ela revela. Aqui, no exacto contraponto à de agente de deterioração na conservação pictórica.

Nasceu em Sátão, em 1966. A sua formação dividiu-se entre Lisboa, onde fez o Plano Completo de Fotografia no Ar.Co, e Londres, desenvolvendo um projecto individual (Ideia de Luz) no Royal College of Art.

Expõe regularmente em Portugal e no estrangeiro desde o início da década de 90, participando ainda em bienais, feiras de arte e encontros de fotografia. Tem recebido vários prémios, entre os quais o Prémio BES Photo 2005 e o Prémio Especial do Júri na edição 47 do Salon D’Art Contemporain de Montrouge (2002). O seu trabalho está publicado em vários livros e catálogos e representado em várias colecções, públicas e privadas. É actualmente professor de Projecto Artístico no Curso de Fotografia e Cultura Visual do IADE – Instituto de Artes Visuais, Design e Marketing.

 

Pedro Cabral Santo

Playhot (who portrayed the broken dreams of common people? alude às personagens que compõem a cena que Pedro Cabral Santo apelida de mistificadora de uma ideia de pátria que nunca existiu, a da “suposta nação lusa”. Com bonecos Playmobil e em molduras de pratos da McDonald’s, oferece em contrapartida uma reconstituição à la merchandising.

Natural de Lisboa (1968), Pedro Cabral Santo formou-se na Faculdade de Belas Artes.
Realizou o seu percurso à margem das galerias institucionalizadas e expôs a maioria dos seus trabalhos em espaços alternativos. Na década de 90 integrou, na qualidade de artista e/ou comissário algumas das principais exposições colectivas que apontavam para um novo entendimento da forma de fazer arte em Portugal e que revelaram toda uma nova geração (Alexandre Estrela, Miguel Soares, Paulo Mendes, Rui Toscano ou o próprio Pedro Cabral Santo). Das mais importantes exposições incluem-se: Tilt, CAM – Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa (2008); The Return of the Real – 4, Museu do Neo-Realismo, Vila Franca de Xira (2008); Sem Dó, com Ré, Museu do Chiado – MNAC, Lisboa (2011).